Pesquisa mostra que 24% das escolas públicas não discutem o racismo


Uma pesquisa do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT)  mostra que 24% das escolas públicas do Brasil ainda não discutem o racismo com seus alunos, mesmo tendo passado 15 anos de aprovação da lei 10.639, que institui a inserção de conteúdos de história e cultura afro-brasileira nos currículos escolares

As escolas que trabalham questões raciais e da cultura afro-brasileira estão “desconstruindo um sistema-mundo que existe desde o século 16”. “A formação das secretarias de Educação sobre o tema é importante, mas a construção do conhecimento do professor com a gestão é tão importante quanto”, afirma a professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. “São revolucionárias essas experiências que estimulam o aluno a aprender para construir, e não aprender para repetir”.

Petronilha foi relatora da comissão que elaborou o parecer que regulamenta a lei 10.639/2003 e estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. A lei entrou em vigor há 15 anos, mas a inserção de temas da cultura afro-brasileira ainda não são discutidos em todas as salas de aula. Duas escolas, uma do Pará e outra da Bahia, elaboraram projetos para turmas do Ensino Médio com foco na cultura afro-brasileira. Conheça esses projetos:

Uma consciência construída ao longo dos anos

A professora Odalícia Conceição é especialista em aplicação da lei 10.639, mas ela enfrenta um desafio: sua formação é em Matemática. Quando chegou à EEEFM Jornalista Rômulo Maiorana, na cidade de Ananindeua, no Pará, a professora percebeu que a escola não falava sobre consciência negra sequer no feriado nacional, dia 20 de novembro, mesmo tendo em sua população uma ampla maioria de descendentes de negros e indígenas.

Aos poucos, Odalícia conseguir despertar na escola o interesse pelas temáticas afro-brasileiras. Em 2007, foi realizado um evento “Raça e saberes africanos” no dia 20 de novembro. Para quem não costumava sequer tocar no assunto, já era um avanço.

No ano seguinte, a professora tanto fez que conseguiu convencer os colegas a pensar em um projeto que rendesse trabalhos ao longo do ano. Em 2009, veio sua ideia de relacionar sua disciplina com a cultura afro-brasileira, e assim foi feito o projeto de jogos de tabuleiro e a Etnomatemática.

Mas Odalícia queria mais: seu objetivo era engajar os demais professores a também contribuírem com seus conhecimentos específicos das áreas. Estudou por conta própria a relação da cultura afro-brasileira com diferentes disciplinas e deu sugestões de aplicação em sala de aula, como uma forma de presente. Ela sabe que o ideal é que a iniciativa parta dos próprios professores e da gestão da escola. “É necessário que a gestão seja democrática, que os gestores insiram esse tema no PPP da escola, para que todas as disciplinas contribuam com conhecimentos interdisciplinares”

Para verificar se haveria um ganho na aprendizagem de seus alunos, Odalícia aplicou os jogos com uma das turmas, e com outra não. Qual não foi a sua surpresa quando percebeu que não apenas o desempenho da turma que trabalhou relações étnicas havia melhorado, mas a autoestima das meninas também apresentava mudanças. Os índices de reprovação e de frequência na sala diminuíram. “Nenhum professor queria aplicar provas naquela turma porque os alunos só entregavam nos últimos minutos. Quando fomos investigar o porquê daquele comportamento, vimos que eles acreditavam que deviam dar o seu melhor”, conta, emocionada.

Quando a sociedade pauta a escola

Na Bahia, o diretor Francisco Cruz do Nascimento teve que lidar com uma triste realidade. Duas jovens negras, Núbia de Oliveira Santos e Leidiane dos Santos, desapareceram no município de Ibirapitanga. Ambas eram alunas do Colégio Estadual Paulo César da Nova Almeida. Alguns dias depois, o corpo de uma delas foi encontrado, mas uma segue desaparecida até hoje. “Os alunos da escola ficaram muito incomodados, pediam uma atitude da escola”, lembra o professor Antônio José Santana Jr.

Um terceiro episódio reforçou a necessidade de conversar sobre a história dos negros no país: a hostilização que alunos e alunas negros sofriam na escola. “Um dia, um aluno foi à escola portando um objeto do candomblé. Ele foi tão hostilizado que tivemos que parar nossas atividades para conversar a respeito”, diz Antônio.

Debates sobre história e cultura afro, empoderamento negro e religiões africanas ganharam espaço no cotidiano escolar. “Na escola, as questões raciais se tornaram prioridade. Incluímos o tema no projeto político-pedagógico da escola para dar a força de uma espécie de ‘lei interna’, que é criada e respeitada pela coletividade”, conta o diretor Francisco Cruz do Nascimento. Para ele, a escola não pode se ater à visão eurocêntrica dos livros didáticos, “que não nos representam”, e deve buscar fontes diversas de informação.

O projeto extrapolou os limites da escola e foi levado a um assentamento, com oficinas que promoviam o debate entre idosos e jovens, e à Câmara municipal e espaços públicos, através de protestos que pediam justiça pelo desaparecimento das meninas.

Para Antônio, dois sinais são os mais importantes para o sucesso. O primeiro, de que os jovens não se calam mais diante de atitudes preconceituosas. “Podemos não ter erradicado o preconceito, mas a juventude negra agora tem coragem de denunciar atitudes preconceituosas na escola e fora dela”, orgulha-se. O segundo, quando ouviu dois jovens, um cristão e um do candomblé, conversando respeitosamente sobre visões diferentes que suas religiões tinham sobre a homossexualidade e surpreendendo-se com as respostas.

“A escola não consegue e não deve se fechar em sua bolha, alheia aos acontecimentos da sociedade. Recentemente, os alunos quiseram debater a execução da vereadora Marielle [Franco], e em suas discussões, eles apontaram sinais de homofobia, racismo e feminicídio dos discursos e nas atitudes da sociedade atual”, resume Francisco.

O seminário “Gente que transforma a Educação: experiências de equidade racial e de gênero” é uma iniciativa do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) em parceria com o Instituto Unibanco, o Sesc e a Fundação Ford.

Fonte: Nova Escola.org e CEERT

Postado por Equipe Limite Zero Em: 28/Mar/2018 / Sem Comentários

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