Memória e resistência nos bairros negros da cidade de São Paulo


Conheça os bairros paulistanos que tiveram  grande concentração e representatividade da cultura negra em São Paulo


O Bixiga, bairro central da cidade de São Paulo, nem sempre foi das tarantelas, mesas quadriculadas em branco e vermelho ou cheiro de molho de tomate. No período da República, de 1890 até 1950, fervilhavam em suas ladeiras jornais e associações de imprensa negra, como o Clarim D’Alvorada, que lutava fortemente pela defesa da cidadania e identidade negra. Esse território é hoje reconhecido como italiano porque a história da população negra que o ocupou e ainda ocupa sofreu sistemáticos apagamentos.

Recuperar a história desse e de outros bairros negros na capital paulista foi a empreitada do projeto Itinerários da Experiência Negra, do Coletivo Crônicas Urbanas. Contemplado pelo edital Redes e Ruas em 2016, o coletivo formado pela jornalista Fernanda Fragoso Zanelli e pelos historiadores Fábio Dantas Rochas, Lilian Arantes e Fernando Mafra pesquisa o direito à cidade sob a perspectiva racial.

“Pensamos a cidade construída por seus sujeitos. Por mais que você tenha uma cidade que expulse progressiva e historicamente os negros do seu âmago, queríamos mostrar a força da resistência que aconteceu e que ainda acontece no centro de São Paulo”, relata Fábio Dantas.

Mais do que cartografar a São Paulo negra, o coletivo também tinha o desejo de conectá-la a uma juventude periférica que busca se reconhecer enquanto ocupante de territórios que lhes foram negados. Para fazê-lo, eles desenvolveram dois mapeamentos. Um é o histórico: redescobrir a cidade negra e retomar bairros embranquecidos. O outro é contemporâneo: mapear os aparelhos de resistência da periferia da Zona Oeste de São Paulo, articulando-os principalmente por meio do ativismo jovem. Por fim, utilizar o conhecimento cartografado e disseminá-lo em formações com universidades e a rede pública de educação.

O resultado desse mapeamento está na publicação Guia dos Itinerários da Experiência Negra: Um Passeio Histórico por São Paulo e também no website do projeto.

Os bairros negros de São Paulo: Bixiga e Liberdade

Se foi necessário todo esse concreto para abafar a presença negra, é porque ela sempre pulsou forte por aqui.

Muito antes de ganhar lâmpadas orientais, a Praça da Liberdade era chamada de Largo da Forca. Ali foram condenados, mortos e enterrados homens e mulheres escravizados que lutaram por sua independência. A Igreja da Nossa Senhora dos Aflitos, construção hoje escondida entre depósitos e padarias da travessa Rua dos Estudantes, está erguida sobre ossos dos resistentes e é o único vestígio físico de sua existência.

“As pessoas se esquecem que houve escravidão em São Paulo”, explica Dantas. “E pouco sabem que houve aqueles que lutaram fortemente contra ela, criando assim territórios de resistência e memória. A Praça da Forca é um deles”. Em 1821, foi o grito por liberdade do soldado negro condenado à forca Francisco José das Chagas uma das possíveis razões do nome atual do bairro.

No período pós-abolição, que tem seu início em 1888, a população negra vivia em casas e cortiços no centro da cidade; era naquela região que homens e mulheres sem acesso a direitos básicos como moradia conseguiam trabalho. Segundo a historiadora Cláudia Rosalina Adão no livro A Luta Contra o Racismo do Brasil, tanto a vinda de operários imigrantes como também os chamados trabalhos de melhoramentos da cidade – políticas de Estado para embranquecer e europeizar o centro – empurraram a comunidade pobre e também a negra para as periferias da cidade.

Os bairros negros de São Paulo: Bixiga e Liberdade

Muito antes de ganhar lâmpadas orientais, a Praça da Liberdade era chamada de Largo da Forca. Ali foram condenados, mortos e enterrados homens e mulheres escravizados que lutaram por sua independência. A Igreja da Nossa Senhora dos Aflitos, construção hoje escondida entre depósitos e padarias da travessa Rua dos Estudantes, está erguida sobre ossos dos resistentes e é o único vestígio físico de sua existência.

“As pessoas se esquecem que houve escravidão em São Paulo”, explica Dantas. “E pouco sabem que houve aqueles que lutaram fortemente contra ela, criando assim territórios de resistência e memória. A Praça da Forca é um deles”. Em 1821, foi o grito por liberdade do soldado negro condenado à forca Francisco José das Chagas uma das possíveis razões do nome atual do bairro.
Foi justamente para entender como a população negra resistiu no centro do período de 1890 até 1950 que o coletivo Crônicas Urbanas pesquisou arquivos oficiais, como registros do 2º Tabelião de Notas, e acessou memórias de importantes militantes e ativistas do movimento negro, como José Corrêa Leite.

A arquitetura antiga que sobrevive em concreto na região central é a materialização das conquistas do processo de gentrificação e apagamento empreendido pelo Estado pós-abolicionista.

Ao mapeamento de pontos como os jornais A Pátria – Órgão dos Homens de Côr ou locais como o Largo da Memória – Obelisco dos Piques, também se somam organizações que atuam até hoje no centro, herdeiras dos movimentos de resistência, como a Casa Mestre Ananias, espaço de resguardo da cultura negra, onde se pode aprender sobre samba e capoeira. São Paulo é uma cidade negra na manutenção de mais de 200 anos de aparelhos de presença e memória afro-brasileira, e a cartografia revela essa riqueza racial.

Mapear é resistir

A segunda parte da experiência do Itinerários dá um salto temporal e se debruça no contemporâneo dos movimentos sociais negros. Como seria impossível mapear todos os coletivos e organizações de São Paulo que trabalham a temática racial, o Crônicas optou por olhar para a região periférica da zona oeste, em especial o distrito de Raposo Tavares.

A escolha foi intencional: Fernanda passou grande parte de sua infância na região, e sabe o quanto o jovem tem dificuldade de se orgulhar e se reconhecer como morador de bairros como João XXIII.

Como explica ela em sua pesquisa Novos Fluxos na Busca por Oportunidades: Trajetórias de Jovens nas Periferias das Cidades, publicada pelo Instituto Itaú e Instituto Braudel: “Enquanto na Wikipédia, por exemplo, há uma detalhada cronologia da história de Capão Redondo, os bairros do distrito Raposo Tavares, como Jardim Arpoador, nem sequer têm uma página na rede colaborativa”.

Para Isabela, “coletivos da periferia da zona oeste não existem no cenário de outros coletivos. Zona sul tem o rap, zona Leste tem sua identidade, e nossa quebrada sofreu um apagamento muito forte, principalmente por estarmos cercados por uma região nobre. Então ficamos muito contentes quando o Crônicas Urbanas se propôs a mapear nossa região”.

O coletivo do qual ela participa ao lado de Georgia Prado, Vinicius Torres e De Queiroz foi fundado para atuar no Jardim João XXIII, refletindo sobre a questão racial por meio de atividades culturais e políticas. Ele foi um dos 94 aparelhos mapeados pelo Crônicas Urbanas. Temáticas raciais e de ocupação da cidade foram os denominadores comuns entre os grupos, instituições e equipamentos cartografados.

Desvelar a São Paulo negra

No dia 23 de setembro de 2017, 10 jovens das 94 organizações foram convidados a participar de uma expedição pelo itinerário negro de São Paulo. Ainda que não tenham conseguido visitar todas as localidades, foi possível começar desconstruir a noção de que bairros como a Liberdade é somente de imigrantes. São bairros com múltiplas identidades, incluindo a forte presença negra.
Ter um mapa em mãos e caminhar por uma cidade descoberta é ver a memória tomar forma e senti-la debaixo dos pés.

No período pós-abolição, que tem seu início em 1888, a população negra vivia em casas e cortiços no centro da cidade; era naquela região que homens e mulheres sem acesso a direitos básicos como moradia conseguiam trabalho. Segundo a historiadora Cláudia Rosalina Adão no livro A Luta Contra o Racismo do Brasil, tanto a vinda de operários imigrantes como também os chamados trabalhos de melhoramentos da cidade – políticas de Estado para embranquecer e europeizar o centro – empurraram a comunidade pobre e também a negra para as periferias da cidade.

Fonte: cidadeseducadoras.org.br

Postado por Equipe Limite Zero Em: 20/Jun/2018 / Sem Comentários

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