Entrevista com RDO, Manager da loja Cresposim


Saiba como a loja que saiu das ruas se tornou referência de atitude e  empreendedorismo.
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Por Erica Bastos.

 

Segundo os livros de história em 1888, quando a lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel, os pretos estavam livres, mas como ser livre se durante tantos anos sua cultura, sua liberdade e sua raiz foi violentada, esmagada? Nenhuma política foi implementada para essa população ser inserida na sociedade? Não houve nenhuma reparação. Para sobreviver, os pretos tiveram poucas opções, ou nenhuma, a não ser continuar escravo, ou tentar uma nova realidade, criando formas de sobreviver. Diante deste quadro desfavorável, para driblar essa situação tão adversa como falta de oportunidade, o povo preto brasileiro acaba continuando como serviçal, ou tendo que vender alguma coisa.
Esse quadro perdura até nos dias de hoje, em 10 anos, de 2002 a 2012, o número de pessoas negras à frente de empresas no Brasil cresceu 29%.
A grife de roupas Cresposim Conceito, surgiu também desse contexto, que além da questão econômica, a loja que é voltada para o povo preto, também sentiu necessidade de lançar no mercado algo que afligia seus idealizadores, a representatividade negra.
RDO, hoje o dono da grife, que fica em um box, na rua 24 de Maio, conta que a ideia surgiu em 2003, quando era gerente de uma loja na galeria 24 de Maio, e sentiu que ele mesmo poderia ter seu próprio negócio, RDO diz que um dos maiores incentivadores foi o KL Jay, dj dos Racionais MC`s, que quando visitava a galeria sempre dizia que os pretos que tinham ser seus próprios patrões. Na entrevista ele também fala do começo, em que ele e seu primeiro sócio, o Black, vendiam nas festas da Sala Real.

Abaixo leia a entrevista com RDO, sobre a grife Cresposim

1- Quando e como surgiu a ideia ou a necessidade de fazer a grife voltada para o povo afrobrasileiro?

RDO: A Crespossim surgiu em setembro de 2003 e a ideia de ter esse pensamento direcionado a afrodescendência foi por falta de identificação, eu nunca cheguei a me identificar com as coisas que eu via, nesta época de 2003. Não cheguei a conhecer nada referente a cultura negra, a não ser a 4”P, (grife de roupas dos rappers X, Ed Rock e o dj KL Jay), a grife do Panikinho, “Preto é Preto”, que ainda não tinha estrutura. Aí tive essa ideia com a Cresposim, em meio a rebeldia, eu trabalhava numa loja na galeria do Rock, que eu gerenciava, e chegou um certo momento em que ele (dono da loja) não cumpriu a palavra, e aí enxerguei meu potencial, pois muitas coisas dentro da loja era eu que direcionava, ele era só um investidor, então pensei em montar minha própria marca. Fiz vários nomes para a marca, fiz uns meses de pesquisa. O nome, sempre apostei neste nome, um nome afirmativo, em 2003, víamos poucas mulheres com cabelo Crespo, e ela veio abrindo essa trincheira. O KL Jay foi um grande incentivador, ele passava na loja em que eu trabalhava e dizia, cara você que tem que ter sua própria marca.

2- Como foi este começo?
RDO: Depois que nós saímos da loja, no meio da semana vendíamos delivery, entregava na casa dos clientes, entregávamos cartões, vendemos na rua, corremos no rapa, como camelô mesmo. Toda sexta-feira íamos no samba que tinha na rua São José, próximo da galeria do Rock, e depois nós nos dividíamos, eu ia na Sambary Love, e o Black ia para o Sala Real, onde tocava a banda Central Acústica, os caras tinham aberto um espaço para nós. Nosso corre era delivery, na rua e dentro dos bailes. E em 2005 resolvemos abrir a primeira loja, que era um box também, onde é a loja da Marisa, na esquina da 24 de Maio com o do Teatro Municipal, numa galeria chamada Shopping Nova São Paulo, e neste ano também aconteceu a primeira festa da Cresposim.

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3- Que dificuldades foram encontradas no início e quais são encontradas hoje?
RDO: A nossa dificuldade é até hoje, nossa comunidade não está acostumada ainda com produtos que os represente, homens e mulheres ainda não fortalecem as empresas que o fortalecem. O mercado afro ainda esta se formando, ainda é um embrião, não é um mercado não é um mercado estruturado, então hoje, todos os empreendedores afros, passam por dificuldades, porque os empreendedores não acreditam na sua potencialidade, hoje os empreendedores vão para as feiras, é necessário nós termos os afro-shoppings, a gente ter um espaço físico, onde tem várias lojas, vários empreendedores afros, para que a gente consiga ganhar mercado, ganhar espaço, a gente passa dificuldade desde o inicio, qual o preto que não passa por dificuldade, a crise? O preto sempre esteve em crise, nas favelas, dentro das favelas sempre passou por dificuldade, e sempre tivemos que passar por cima dessa situação. É o caso da Cresposim, pois já abrimos e já fechamos, algumas vezes, já foram cinco lojas que abrimos e fechamos, e estamos aí, estamos sobrevivendo.
4- Hoje metade dos microempreendedores brasileiros são afrodescendentes, segundo pesquisa do Sebrae, você enxerga um panorama mais favorável para o afro-empreendedorismo nos dias atuais?

RDO: Os pretos acabam trabalhando com venda, na maioria os afroempreendedores
são donos de salão de beleza, cosméticos para o cabelo, pele, voltado para a moda, estética, a maioria é voltada para moda, mas não podemos ficar só focados na moda, ou na estética, precisamos trazer um conceito para o nosso povo preto, o agente não pode achar que o afroempreendedorismo é só moda, só estilo, não podemos esquecer da questão da consciência, do conceito afro, não podemos esquecer de onde nós viemos, e por que aqui estamos, não podemos esquecer o que nós herdamos, porque uma das dificuldades do afroempreendedorismo são as escolas, a sociedade nunca ensinou os pretos a serem empreendedores, ou empresários, sempre ensinaram os pretos a serem funcionários, trabalha todo mês, ganha seu salário no final do mês, o pouco que você ganha você administra ate o final do mês, o que sobrou não dá para fazer um investimento, buscar um crescimento, o papo de de serviçal mesmo, você fica muito no quadradinho, e pronto ja era, na sociedade nós (pretos) não aprendemos a ser donos, sempre a ser empregados, aprendemos a receber ordem, a Cresposim, tenta quebrar um padrão, abrir trincheira, tem muitas pessoas perceberam essa ideia e tem caminhado junto, o que pra mim é muito gratificante, porque sou um espelho, uma referência, só precisamos ser um pouco mais unidos.

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5- O que você diria para o negro empreendedor que está começando seus negócios?
RDO: Trabalhar muito, estudar muito, a moda é muito volátil, muda muito, tem que fazer muita pesquisa, não pode pensar que vai lançar uma marca e já vai estourar, a Cresposim tem 13 anos, tem que vim com um conceito, a sociedade precisa enxergar, que há referencias, muitas marcas surgiram e estouraram, mas não tinha conceito afro, tem que trabalhar muito. A Cresposim tinha esse. O preto está muito na tendência, muitas mulheres estão em transição, hoje você vê mais homens com cabelo trançados, dreads e black power, roupas com geometria africanas, com tecidos africanos.
Porém há muitos empreendedores que não conhecem o movimento negro, não conhecem o MNU (Movimento Negro Unificado), a Frente Negra Brasileira, nunca ouviu falar de uma pessoa super importante para nós, que é o Abdias do Nascimento, muitos não estão cientes na luta, que os pretos já vem sofrendo para ganharmos este espaço até aqui, muitos afroe que não partiram para a militância. Então quando eles perceberam que existe uma tendência e um nicho, resolveram se envolver, muitos afroempreendedores que não partiram para a militância, mas está fazendo algo direcionado a militância, mas tudo tem seu momento, talvez seja este o momento.

As referencias que temos que dar para nossos filhos são Zumbi dos Palmares, Abdias do Nascimento, Luiz Gama, Luiza Mahim, esses pretos que lutaram por nossa causa, o poeta Solano Trindade, e vários outros que lutaram pelos pretos
aqui no Brasil, hoje as pessoas não conhecem muito o Abdias, por exemplo, mas se você falar de Malcolm X, Martim Luther King , África do Sul, você fala de Steve Biko, que mataram, (Biko) era uma pedra no sapato, nossas referências vieram mais de fora do que aqui dentro, as referências, Marcus Garvey, que é o pai do pan-africanismo, outros líderes eram Garvenistas, o Garvey, o próprio pai do Malcolm X era garvenista, veio mesmo com esta luta, África para os Africanos, repatriar o povo preto,que vieram sequestrados e aqui foram escravizados, que voltem os engenheiros, os advogados, as enfermeiras para reconstruir a África.

 

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Postado por Equipe Limite Zero Em: 15/Set/2016 / Sem Comentários

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