Entrevista com Gus Davis


Professor Gus Davis

Nascido em Dallas (EUA),O Missionário,Teólogo,Professor Gus Davis mora no Brasil há mais de 15 anos.Pelo fato de estar totalmente adaptado á rotina do País: Política,Educação,Cotas Raciais e dentre outros assuntos ele traça um inevitável comparativo do Brasil da época em que chegou aqui,o de hoje,com seu país natal.

Miscigenação e Segregação: Políticas Raciais

Como americano aqui no Brasil, eu conheço a questão racial do Brasil sob a forma da miscigenação. Eu entendo que miscigenação é uma política oficial, significa que o governo apoia esse comportamento do povo. Como americano, analiso que é diferente do que aconteceu nos EUA. Enquanto vocês aqui praticavam (e ainda praticam) a miscigenação, eles praticavam a segregação. A cultura de igualdade é diferente. Na segregação, os negros são separados dos brancos, igual como o Nelson Mandela falou sobre o Apartheid. A segregação nos EUA não foi tão igual como o Apartheid, o Apartheid foi diferente porque tirou todos os direitos dos negros da África do Sul de ter atividades políticas e alguns privilégios. Isso não aconteceu nos EUA. Nos EUA, os negros tiveram atividades políticas, eles podiam organizar os interesses políticos só para os negros. Eles foram encorajados porque o governo falava que era “separado, mas é igual”. Então o que o governo gastava com o povo branco, ele gastava – menos – com o povo negro. Por exemplo, se eles construíam uma escola numa cidade nos EUA, eles construíam duas escolas: escolas para os brancos e escolas para negros. Nas escolas para os negros, os investimentos eram menores. Para os brancos, os investimentos eram maiores. Mas em dado sentido, isso ajuda os negros dos EUA organizarem os interesses deles e percebi que isso não existe aqui no Brasil. Ou existem em pequenas margens algumas organizações que instituem os interesses para os negros. Eu já ouvi sobre os quilombos e coisas assim, mas o alvo dos quilombos é completamente diferente. Então nos quilombos, os negros querem se separar dos brancos, eles não querem se associar com os brancos. Eles não estão interessados na integração, o objetivo deles é quase o objetivo dos índios aqui. Os índios denotam que eles querem uma nação separada dentro da “nação” branca. No meu ponto de vista, essa filosofia ou ideologia apresenta pontos muito fracos porque o ponto crítico caiu, não vai ter muito sucesso nesse tipo de coisa. Por exemplo, ouvi que os índios pressionam o governo para ter uma área só para eles, mas como eles esperam que o governo vá sustentar esse financiamento? Eles têm recursos e eles podem explorar, vender, mas todos os recursos vão ter limites. Quando os recursos acabarem, o que eles vão fazer? Então o objetivo é fraco. Nos EUA é diferente; a luta foi entre integração, igualdade pela integração. O povo americano é único – brancos e negros. O que o governo faz para os brancos, eles fazem para os negros; igual. Nesse caminho, as obras de Martin Luther King destaca esse objetivo; nós chegamos com o Obama como o primeiro presidente do país que é negro. E a luta continua para empregos e coisas assim. Eu acho que vai ter muito tempo para isso acontecer aqui no Brasil.

Sobre Ações Afirmativas brasileiras

No meu ponto de vista sobre a política no Brasil, percebi que o governo pode beneficiar o povo com duas caixas de privilégio. Mas o que acontece: teve uma caixa de privilegio para os brancos e a caixa de privilégio para os negros, mas a caixa de privilégio para os negros entrou na caixa de privilégio para os brancos. Então os brancos tiveram duas caixas de privilégios e os negros não tiveram nenhuma! Essas ações afirmativas podem corrigir esse tipo de problema. Vamos providenciar alguns privilégios para os negros, mas o homem branco começa reclamar que tiraram o privilegio dele! É o privilegio que os negros devem ter, mas até agora não tem. Começa agora com as cotas universitárias, um monte de gente reclamando. Até esse debate, os negros não tem nenhum privilégio. O branco teve duas caixas de privilégio, mas o privilégio é nosso (povo negro). Esse tipo de comportamento no Brasil é antigo, muito antigo. Até algum tempo quando Moisés desceu a montanha com a lei de Deus com os dez mandamentos e ele apresentou para o povo judeu que se obedecessem as leis, Deus iriam protegê-los. Todo mundo concordou. Mas no momento que Moisés morreu, os fariseus falaram que a lei de Deus eram deles, só eles teriam o acesso à verdade de Deus. Quando Jesus chegou aqui e começou a fazer milagres e ele falou: “eu sou filho de Deus”, os fariseus falaram que ele era perigoso e quiseram acabar com esse cara. Se Jesus continuasse agir assim, eles iriam desmascará-lo. Deus dava a lei ao povo de Israel e da mesma forma os privilégios deveriam ser aplicados aqui no Brasil. Os privilégios do Brasil devem ser para o povo do Brasil, não para ser dividido por caixas. Esse é um tipo de Apartheid, um tipo de racismo, um tipo de segregação forçada, escondida. Na minha percepção, acho que os negros estão enganados por essa proposta, onde os negros defendem o privilegio do homem branco, mas não defendem o próprio privilegio. Essa é uma coisa que acontece na política enganosa.

Ações Afirmativas e a Coação do Governo

A organização é assim: se você dá cotas para os negros aqui, você viola a política da miscigenação, que fala que você é igual – mas não funciona assim porque tem que dar esse privilégio, mas eles dão (o privilégio) só para os brancos! São poucas pessoas que tem representação no governo, que são ricas, elas podem morar em qualquer lugar. Com o povo não funciona assim, ninguém o reconheceria – o povo não tem privilégio.Tudo isso significa que a política do Brasil é corrupta, a corrupção está no coração dela. Ninguém tem respeito com a lei. Aqui, o jeito tem mais popularidade que a lei.

Jeito Brasileiro

O jeito brasileiro significa que a lei não existe, a ética não existe, a moralidade não existe – somente a corrupção existe. O jeito passa pela corrupção, não é uma coisa ética, moral, que vai proporcionar uma positividade para o povo brasileiro, uma benção para nação. Eu estou há 23 anos aqui e vi os avanços do Brasil só acontecer na área econômica, comercial. Nessa área o Brasil venceu, mas o resto [expressão negativa] está quase igual estava há 23 anos.

Expressar a violência não funciona

Desde Martin Luther King, ninguém apoia métodos violentos. Nós já aprendemos que a violência não funciona, a violência é uma bola de neve que começa pequena e vai crescendo, não resolve nada – só piora as coisas. O povo americano, nem negro e nem branco, não vai apoiar nenhum método violento, isso não funciona. Como Mandela fez: se existe um povo que teve uma razão pela violência, era na África do Sul, mas o Mandela diz que não funciona. Aconteceu na Índia com o Mahatma Gandhi. Se alguém que quer um movimento usando violência, isso é uma coisa estúpida e atrasada. Ele (quem usa) ainda não aprendeu a lição que não funciona. Até agora o Obama está tentando acabar com a guerra. Guerra não produz paz. existe um pequeno grupo aqui no Brasil, eu encontrei esse pessoal nas minhas aulas de inglês. Existe um pequeno grupo anarquista aqui no Brasil. Eles não querem ordem. Se eles são inteligentes, eles podem perceber que quando Deus cria o universo, ele coloca a ordem. A ordem é uma coisa que Deus aproveitou. Alguém que fala que não quer ordem, é uma ignorância. Igual a pessoa que fala que Deus não existe, isso é uma ignorância. Então eles só contribuem para essa doença social pelo método violento que eles contribuem.

Inclusão do estudo sobre biografia de influências negras na Educação

Por exemplo, quando eu era aluno na faculdade nos anos 60, eu era membro de um grupo dos alunos negros, Black Sudents Union. Os alunos negros se uniam e começavam manifestações na faculdade sobre um currículo para negro chamado “Black Studies”*. Esse tipo de curso providenciava a nós uma oportunidade de estudar biografias dos negros heróis que contribuíam para o avanço não só dos negros, mas da humanidade. Por exemplo, ensinar sobre Martin Luther King na Universidade de Boston. Ensinar sobre a força da moralidade, a força das éticas e a força da educação.

A influência da economia na religião e a “sociedade doente”

Os países ocidentais tem uma política chamada capitalismo. Então a religião já virou um negócio aqui; é legitima para acolher lucro na Igreja. Então tem muitos pastores que são como os políticos – corruptos (risos). Nem todos, mas existem muitas corrupções nas Igrejas também, essa é uma coisa que nós precisamos corrigir, curar. Nós estamos numa sociedade doente. Em muitos países é quase igual, uma sociedade doente que não tem nenhum programa de cura. O que está acontecendo na Igreja não está funcionando na sociedade e esse é um problema que o Brasil precisa conhecer, procurar um programa de cura para essa doença que temos aqui. Isso que o Mandela alcança, ele alcance a isso. Na China, o novo primeiro-ministro já fala que corrupção não funciona, nós precisamos acabar com a corrupção. Alguém no Brasil fala assim? [Nesse momento, o entrevistador II cita responde a pergunta citando o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Joaquim Barbosa]. Por enquanto ele é a única voz que reconhece que a sociedade está doente e precisa de um programa de cura, que é acabar com a corrupção. O FBI dá uma reportagem dizendo que o Obama recebe 45 ameaças de morte por dia. Todos os dias ele recebe nada mais, nada menos que 45 ameaças de morte por dia. Eu acho que nenhuma agência de polícia vai permitir matar o Obama. O exército vai protegê-lo, ele é chefe do exército. O Joaquim Barbosa não sei que proteção ele tem (Risos), talvez a polícia federal. Mas se for um assassino determinado, quem sabe.

Sobre a dualidade Ciência x Religião em relação à cura da alma.

A medicina do Brasil acredita que a ciência pode corrigir os problemas deles, mas não é verdade. A medicina acredita que a religião é uma “coisa em excesso”. Eu tive uma experiência com um médico uma vez, ele era oftalmologista. Ele me disse que acreditava em ciência, que não acreditava em Deus, não acreditava que precisaríamos de Deus. Eu expliquei a ele que existem coisas na nossa vida que é mais forte que nós e com a religião você pode receber apoio para ganhar ou aguentar, um ou outro, mas sozinho você não aguentaria. Na mesma semana ele viajou para o interior visitar os pais e quando ele chegou ele resolveu tomar banho. Ele preparou o banho bem quente e quando ele foi entrar na água ele percebeu a água muito quente e ligou a água fria. Ele recebeu um choque elétrico e ele recebeu queimaduras de terceiro grau até o pescoço. Em cinco dias ele morreu jovem. No momento que ele percebeu que estava morrendo ele pediu para chamar o padre. Era tarde demais. A pergunta é: o que você vai fazer quando a ciência ataca você? Porque eletricidade é uma coisa da ciência. Quando ciência vira contra você, você não tem direito. Mesma coisa como a bomba atômica. Os EUA já avisou que nós também podemos ser destruídos com uma bomba atômica. E o que faremos? Nós sabemos como destruir vidas e não como criar. A religião fala sobre isso e este é o nosso problema, como a ciência pode construir qualquer coisa para destruir vida, mas eles ainda não criaram a vida.

*Black Studies – textos escritos por autores negros para estudantes negros. Mas na realidade, os textos foram lidos por toda população. Naquele tempo, toda história dos EUA eram escritos por autores brancos. Existiam obras escritas por autores negros, mas não eram encontrados nas bibliotecas das faculdades. Em 1960, os estudantes negros da Universidade da Califórnia reivindicaram estudos negros em geral.

 

Postado por Equipe Limite Zero Em: 10/Jul/2014 / Sem Comentários

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