Acolhimento e informações necessárias fortalece mães de filhos com deficiência segundo Norma, fundadora do projeto Marias


Psicopedagoga criou projeto em favela do Rio para empoderar famílias de pessoas com deficiência: “Quem precisa entender a lei é a mãe. Como ela vai falar de lei e garantir inclusão sem entender?”

Norma Maria, de 50 anos, psicopedagoga e criadora do Projeto Marias. Há 15 anos o projeto atende mães de pessoas com deficiência, principalmente crianças e jovens. A iniciativa nasceu meio sem querer, mas com um objetivo bem definido: acabar com o sentimento de abandono que toma as mulheres quando descobrem a deficiência ou a necessidade especial de um filho.

Norma conta que ela mesma sentiu o abandono quando seu filho Kevin, hoje com 20 anos, nasceu. “Você acha que está abandonada e você realmente é abandonada. Quem está fora, te rejeita, e você se rejeita de si mesma e a todos. Eu achava que todos que me olhavam, o faziam por causa do meu filho deficiente. Eu pensava: ‘já que eu não aceitei o meu filho, por que você iria aceitar?'”, explica.

O processo de aceitação e entendimento das necessidades de Kevin foi longo, mas com o tempo ela compreendeu que a inclusão não cabia só a quem é mãe. Ela entrou em ação para convencer a creche, a sociedade e a sua família de que nenhum deles podia deixá-la sozinha em uma caminhada repleta de nuances e, sim, problemas: “Todos são participantes para que o Kevin possa avançar em seu desenvolvimento”.

Então ela deu uma virada na forma de lidar com a deficiência do filho. “Parei de chorar e aprendi a brigar”, define. Na preparação para a briga, ela terminou o segundo grau em um supletivo, prestou vestibular, se especializou em cursos de reabilitação infantil, técnico de enfermagem e curso de cuidadora. Especializou-se só para cuidar do filho, mas tanto conhecimento não poderia ficar dentro de quatro paredes.

Em Manguinhos, Norma começou uma luta para ajudar outras mães que ela via como espelhos, pessoas que choravam e lamentavam pela falta de inclusão sofrida pelas crianças, por não saberem como agir. Então ela começou a agir por elas. A primeira ação foi um Natal Solidário, com 50 famílias de crianças com deficiência. Depois, começou a organizar rodas de conversa para entender mais profundamente as dores daquelas mães. Desde o marido que não ajudava, até o vizinho que estacionava na calçada e “esquecia” que ali morava uma pessoa cadeirante. Ela acredita que a troca de experiências é fundamental: “A luta de uma fortalece a outra!”.

O projeto de acolhimento criado por Norma é, segundo ela, único. “Nesta condição de acolhimento com a inclusão de pessoa com deficiência e em vulnerabilidade social não há projeto semelhante”, afirma. Ela explica que um dos pilares do Maria é o entendimento de que a inclusão não pode ser forçada.

“A inclusão tem que acontecer primeiro com a pessoa que não tem deficiência. Eu não posso enfiar goela abaixo de ninguém. A pessoa tem que entender isso, e se for um profissional, tem que ter isso na grade curricular desde a faculdade. O profissional tem que me mostrar que tem a habilidade de lidar com o que chamam de adversidade”, diz.

E são várias as histórias de Norma discutindo em salas de aula, por conta do seu filho ou de filho de mães acolhidas por ela. Certa vez, encontrou uma criança “deixada de castigo” embaixo de uma mesa por estar “atrapalhando a aula”. Por isto, ela deixa bem nítido que a bandeira dela é para que um aluno nunca seja excluído por ter deficiência, e por isto, nas rodas de conversa que promove, explica às mães sobre leis, especificamente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação.
“Quem precisa de empoderamento é a mãe, a mulher. Quem precisa entender a lei é a mãe. Como ela vai falar de lei e garantir inclusão sem entender? A gente não quer piedade, somente que as leis se cumpram integralmente. A metade não nos interessa, quero exatamente como está escrito”, defende.

A psicopedagoga reconhece que uma trajetória de escolaridade como a dela dificilmente a levaria até os dias atuais, mas tudo mudou com a chegada do Kevin. Na infância, ela começou a frequentar a escola somente aos 12 anos de idade e se tornou uma ótima aluna graças ao incentivo da professora, a primeira que teve. Hoje ela tenta fazer o mesmo com as crianças que atende junto com as mães.

“A minha professora ensinou o caminho que eu deveria andar, e é o que eu faço com as minhas crianças hoje. Elas são bagunceiras, eu gosto e até prefiro. Com a bagunça, eu conheço a criança. Quero conhecer a criança completamente, para trabalhar o perfil e tirar o melhor dela”, conta.

As suas crianças são atendidas dentro de uma sala cedida pela Casa do Trabalhador de Manguinhos, decorada com os trabalhos feitos e com lápis e canetas espalhados. Trabalhos manuais, colagens e tudo aquilo que possa desenvolver a criança plenamente. Orgulhosa, Norma mostra os trabalhos expostos e explica a função de cada um e seu processo. Sem patrocínio fixo, o Projeto Marias só existe porque Norma sempre teve cara e coragem de pedir apoio dos que estão por perto, seja com uma bola ou com um espaço. Quando falta renda para alguma atividade, ela complementa do próprio bolso.

Tantas demandas, tanta procura, tantas funções suscita a dúvida: quando a Norma cuida dela? E a resposta inexiste. “Eu não tenho tempo para a Norma. O projeto tem 15 anos, eu tenho 50 anos, e sempre foi assim. A favela me conhece, falam que eu se eu pudesse estar em todos os lugares, todos os problemas seriam resolvidos”, conta, sem parecer discordar.

“Quando eu vejo uma mãe se empoderando, vejo que estou alcançando meu objetivo. Se eu desistir, elas não vão conseguir fazer isso”, diz. O sonho de Norma concorda com aqueles que depositam nela a fé necessária para que as coisas se ajeitem. É longe de soberba. No caso de Norma, é mais como um entendimento da sua missão em Manguinhos e no mundo, com crianças com deficiência e suas mães e com todos que estão a sua volta.

Fonte: Huffpost

 

Postado por Equipe Limite Zero Em: 12/Jul/2018 / Sem Comentários

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